A dica de hoje vai para os livros de bolso. Popularizados pela L&PM Editores a partir do final da década de 90, esse formato já ocupa lugar de destaque nas livrarias e na preferência dos brasileiros. Por vários motivos, dentre eles, o preço (que é bastante acessível), é fácil de ser carregado, pode ser encontrado mais facilmente (desde bancas de revista à supermercados), variedade de títulos, entre outros motivos. Outras editoras também oferecem livros nesse formato, com por exemplo, a Cia. de Bolso, Pocket Ouro e a BestBolso. Hoje minha sugestão fica para dois livros da L&PM Pocket, sejam eles "Mulheres" de Eduardo Galeano e "Livro dos sonetos". Poesias e pequenos contos que podem ser lidos aos poucos... sempre que sobrar um tempinho!
Mulheres - Galeano, Eduardo.
Do escritor uruguaio, Eduardo Galeano, conhecido mundialmente pelo livro "As veias abertas da América Latina", traz neste livro uma seleção de textos que são uma verdadeira homenagem às mulheres, célebres e anônimas, da América Latina.
Um pequena observação bem pessoal, diga-se de passagem, é que conheci Eduardo Galeano, através de uma grande amiga, que adorava ler para mim, trechos do "Livro dos abraços", outra obra desse escritor, e me apaixonei por uma frase que tenho na ponta de língua:
"Assovia o vento dentro de mim... Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara."
(O livro dos Abraços - Eduardo Galeano)
Segue abaixo um dos contos do livro...
O AMOR
Na selva amazônica, a primeira mulher e o primeiro homem se olharam com curiosidade. Era estranho o
que tinham entre as pernas.
– Te cortaram? – perguntou o homem.
– Não – disse ela. – Sempre fui assim.
Ele examinou-a de perto. Coçou a cabeça. Ali havia uma chaga aberta. Disse:
– Não comas mandioca, nem bananas, e nenhuma fruta que se abra ao amadurecer. Eu te curarei. Deita na
rede, e descansa.
Ela obedeceu. Com paciência bebeu os mingaus de ervas e se deixou aplicar as pomadas e os unguentos.
Tinha de apertar os dentes para não rir, quando ele dizia:
– Não te preocupes.
Ela gostava da brincadeira, embora começasse a se cansar de viver em jejum, estendida em uma rede. A
memória das frutas enchia sua boca de água.
Uma tarde, o homem chegou correndo através da floresta. Dava saltos de euforia e gritava:
– Encontrei! Encontrei!
Acabava de ver o macaco curando a macaca na copa de uma árvore.
– É assim – disse o homem, aproximando-se da mulher.
Quando acabou o longo abraço, um aroma espesso, de flores e frutas, invadiu o ar. Dos corpos, que jaziam
juntos, se desprendiam vapores e fulgores jamais vistos, e era tanta formosura que os sóis e os deuses morriam de vergonha.
Livro dos Sonetos.
Organizado pelo escritor Sergio Faraco, este livro busca resgatar alguns dos maiores clássicos da poesia, gênero esse que, é uma das formas mais sublimes da expressão artística. Traz uma seleção de sonetos de poetas portugueses e brasileiros (Alguns bastante conhecidos outros nem tanto), do período de 1500 à 1900.
Essa antologia, coloca-nos diante da grandeza da nossa língua... Entre os maiores destaques desse livro estão, Camões, Fernando Pessoa, Olavo Bilac, Florbela Espanca, Augusto dos Anjos, Machado de Assis, Castro Alves, etc.
Vale a pena ter sempre esse livro na bolsa ou na cabeceira da cama... Um soneto para começar o dia!
Eu
(Florbela Espanca)
Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada… a dolorida…
Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino, amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!
Sou aquela que passa e ninguém vê…
Sou a que chamam triste sem o ser…
Sou a que chora sem saber porquê…
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!
(Livro dos Sonetos, pág. 104)
"A leitura não é uma atividade elitizada, mas uma ferramenta de transformação social dos indivíduos."